29.12.05

Retrato da meia-noite


Nunca um Natal foi tão chato comigo. Nunca um fim de ano se tornou tão imbecil. Nunca tive um dezembro assim. Olho para os lados, não adianta. Olho para a frente, ela se torna vazia. Não consigo mais escrever decentemente, nunca tive um dezembro assim. As mesmas pessoas, os mesmos cheiros, as mesmas conversas. Parece que nada é como antes – novidade.


Eu me perco tentando achar as saídas, pensando como seria se (...), criando situações, inventando caminhos. Nunca tive um dezembro assim. Tão repleto de mágoas, tão concreto e sem fadas. A mesma magia me que me enfeitiçava hoje virou pó. Um pó amargo, cinzento, sem vida. Um pó que me enfraquece, que não me deixa lutar contra algo que eu não vejo. Talvez eu lute contra mim mesmo, talvez contra o mundo e os outros. Nunca quisera eu ter um dezembro assim.


Não há mais folhas caindo pelo chão, não há mais vento acariciando minha visão. Simplesmente algo está perdido no escuro, não consigo encontrar fogo para acender. Meu fogo se apagou. Meu brilho se enfeitiçou. Minha vida, malogrou.


Anos e anos tentando reprimir meus sentimentos, tentando me tornar uma pessoa aguda, sem fins objetivos, tudo o que eu queria era que ninguém me levasse à sério. Hoje vejo que não me levaram.


Caio na tentação de um dia poder, quem sabe, concertar tantas imbecilidades, atrocidades da minha vida. Mas falta o fogo. Nada me acende. Nada parece querer cominar um sentido, levar-me a alguma senda. Eu não queria ter um dezembro assim. Olhares distantes, pensamentos carentes, tristezas profundas.


Quem foi que me deixou assim? Onde está toda aquela alegria que eu via reluzindo pela minha frente, abre-alas da humanidade? Onde foi que se escondeu minha vida de grandes acontecimentos, repleta de prioridades?


Eu me vejo perdido. Eu me perco sem fim, não acho caminhos, não vejo mais luz, eu aos poucos não respiro mais. Sinto a falta de um sangue, novo, que traga energia, que me procure nos dias mais sem-graça, que me faça feliz. Odeio fósforos, vai ver por isso nunca me dei bem com essa “coisa”, chamada viver. Eu sei que não vivo, por isso não procuro viver.


Eu não vivo, eu não vivo mais tão bem.