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Andei pensando esses dias. O que realmente me comove a escrever nos exatos 47 minutos das 3 da matina é um fato muito singular, mas que vem me deixando bravo ultimamente. Vamos falar de gente procurando gente.
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Como se fosse um quadro daqueles programas de TV, sensacionalistas, você acorda e se vê deitado em uma cama no qual poderá chamar apenas 4 de seus melhores amigos para salvarem sua vida. Quem você chamaria primeiro? Eles viriam sem saber a causa da ligação?
Certas perguntas a gente prefere nem saber a resposta, a ter de duvidar de amizades que certamente já desconfiamos que não nos valem tostões.
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Cara. Você começa a pensar em tanta, mas tanta gente [círculo social amplo], que até pira o cabeção de conseguir selecionar pelo menos dois nomes que se salvem. Tudo tem ressalvas, explicações, motivos de descarte. E você começa a ficar desesperado, sem ter como reagir. Sua primeira atitude é pegar o telefone pela primeira vez e tentar sejáláquemfor para vir, por um sacrilégio total exigido pelo momento, para vir lhe salvar.
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"Sua chamada está sendo direcionada para a caix...". Realmente, não deu. Coincidência ou não, melhor não quebrar a cara de novo, tentando alguém que disse, há muito tempo atrás, o quão significativa sua amizade era, além de infinita e para sempre [infinita de novo]. Ual! Vale a pena ligar para a casa de fulano, tirando o risco de não haver alguém para atender ou de a chamada ser repassada à gravações instantâneas.
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- Fulano? Ele tá lá no Rio. Quer o celular dele?
- No Rio? Qual Rio tia?
- De Janeiro. Conhece?
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Apesar de tudo, o contato foi perdido. Não é culpa de ninguém. A cadeira ainda lhe prende. Restam duas alternativas. Uma delas é tentar ligar em vão para mais alguém; outra é simplesmente deitar, relaxar, pensar. Entregue-se, o medo e o pesadelo já tomaram conta. Renda-se, não existem meios de salvação para o que lhe está predestinado. Fuja de sua própria incerteza. Deixe que a paz dos pensamentos desconhecidos sobre você mesmo perpetuem como sementes sobre a terra. Faça-se a treva.
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E assim camnha nossa querida humanidade. Eu ainda me pergunto: quando foi que o mundo ficou tão louco desse jeito? Sim-ples-men-te os últimos dois anos foram os mais loucos até hoje por mim vividos. E não estou mentindo. Em apenas dois anos fui capaz de fazer tantas, mas tantas transformações em minha vida que acabei me transformando, e agora estou querendo recuperar o tempo perdido. Uma ova. Muitos já se foram. Não me surpreenderia dizerem-me que um amigo velho morreu, que outro está em São Paulo tentando ir para a Itália, que outros se casaram e já estão com filho no colo faz três meses, que meus amigos estão cada um indo para uma cidade diferente, para um Estado, para um País. E eu aqui, parado no tempo, achando e acreditando na velha infância, onde todos viveriam felizes e juntos para sempre, nunca perderiam o contato e jamais deixariam de dar ou receber notícias. Tudo pela velha amizade, quem diria...
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Quem nos dera sermos donos de nós mesmos. Repito: o tempo é que determina nossas vidas. Tudo está relacionado a ele: horários para cumprir, idades para celebrar, segundos para nascer, instantes de pura agonia.
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Detesto fazer parte deste círculo ao qual me refiro, o que foi seguindo seu caminho e se esquecendo das velhas amizades. Detesto. Mas não sou o único. Na verdade, todos somos assim, o que me faz sentir pior ainda. Nascemos e seguimos em um rumo no qual é absolutamente normal, embora eu despreze este fato, esquecer pessoas. Gente que vem e gente que vai. Eta mundo ridículo.
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Por mais que sejam poucas as amizades verdadeiras, tenho muitas delas das quais gostaria de manter contato. Não para manter o círculo social em dia, como diria determinada colunista em Caras, mas sim por tudo o que já vivemos juntos e que, querendo ou não, FAZ também parte de minha vida. Manter contato é saudável e faz muito bem para nossa saúde. Acredite[o] nisso.
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