1.5.07

[ Reportagem ] A arte que é preservada

Em entrevista exclusiva, o professor João Laércio Lopes Leal, da divisão de patrimônio histórico e cultural da cidade, fala um pouco mais sobre nosso legado ainda existente


Coordenador da Divisão de Patrimônio Histórico e Cultural de Maringá (favor verificar nota ao final desta matéria) e também professor de turismo do Cesumar, João Laércio Lopes Leal comenta sobre a situação do patrimônio histórico do município. Uma questão de história, cidadania, preservação e muito cuidado.

Patrimônio histórico é todo o conjunto de bens, valores e elementos que guardam a história de um determinado lugar ou de uma certa civilização. Por ser de tamanha importância, o patrimônio apresenta subdivisões que facilitam a localização de arquivos datados há vários anos. Em início, ele se divide em material e imaterial. Patrimônio histórico material é todo o conjunto de documentos e objetos concretos que representem e ilustrem a história do local. Já o imaterial se estende aos contos, histórias populares, danças, lendas, pratos típicos e uma série de outros itens que são preservados na memória popular.

Todo bem material é dividido conforme sua natureza. As fotos ocupam a parte iconográfica, juntamente com todos os outros documentos ligados à imagem. Textos, livros, documentos, diplomas e até correspondências são armazenadas na parte escrita. Já o oral registra entrevistas, depoimentos coletados a partir de um suporte eletrônico, discos da época com mensagens políticas e publicitárias, além de outros inventários. Contudo, é sobre uma última divisão dos bens materiais que irá se abordar. Tratam-se das edificações.

Lopes inicia a entrevista comentando sobre tais edificações. Segundo ele, atualmente em Maringá tem-se como bens tombados três importantes obras arquitetônicas: a capela Santa Cruz, a capela São Bonifácio e o prédio da Companhia Melhoramentos do Norte do Paraná. Lopes ressalta a importância de não esquecer que há um quarto bem tombado, mas tombado pelo Paraná como patrimônio do Estado. Trata-se do prédio do antigo Hotel Bandeirantes. Lopes explica: “De valor estadual, ele é o único exemplar ainda existente de hotéis criados pela Companhia Melhoramentos com a finalidade de abrigar compradores de terras, clientes, técnicos e engenheiros. E, embora sua construção seja da década de 50 e apresente algumas rachaduras, o prédio está muito bem conservado.”

Lopes ressalta que, sendo um bem tombado, o prédio é protegido por lei. Para ser um patrimônio histórico, não depende ser tombado ou não. Há muitos bens em Maringá que não são tombados, mas não deixam de ser considerados patrimônios históricos. “Um bem tombado não é um bem confiscado. A pessoa que tiver um bem tombado pode negociá-lo livremente. O que irá acontecer é que um protocolo estabelecendo limites deverá ser respeitado”, afirma Lopes. “Não vai poder alterar o desenho original do prédio, muito menos destruí-lo. Pode ali funcionar uma outra coisa, desde que mantenha a construção o hotel”, comenta Lopes, quando indagado sobre o futuro do prédio do antigo Hotel Bandeirantes.

Dois bons exemplos de casas antigas e bem conservadas em Maringá. A primeira é a casa do Museu da Bacia do Paraná. “Antigamente, essa casa ficava onde hoje está o Banco Sudameris. Depois é que ela foi transferida – sim, desmontaram e montaram – para onde ela se encontra hoje.” O outro é a casa onde está localizado hoje o Restaurante Baco, esquina das ruas Luiz de Camões e Luis Gama. “Uma construção modesta de alvenaria, e que foi preservada com o tempo”, comenta Lopes.

O entrevistado agora traz à tona uma questão fundamental: o que viria a ser, futuramente, o prédio da Companhia Melhoramentos? “É uma questão de tempo. Por enquanto, sabemos que vai funcionar ali uma outra instituição, sendo mais do que necessária a restauração da estrutura do prédio, que está praticamente degradada”, argumenta o entrevistado. Quando indagado sobre a possibilidade desse prédio virar um shopping, Lopes se surpreende. “De jeito nenhum. Após sair no jornal, mais de 30 entidades, 200 pessoas e outros interessados se mobilizaram para que isso não acontecesse. Não mesmo!”

Uma questão fundamental também foi debatida durante a entrevista. Trata-se de confundir pontos turísticos com patrimônios históricos. Os primeiros seriam pontos consagrados, guardam em si uma grande relevância histórica, agregam valores qualitativos, paisagísticos e arquitetônicos. Todavia, não são considerados patrimônios históricos pois, para se valerem a tal gratificação, deveriam atender a uma série de especificidades.

Bens tombados são aqueles que se apresentavam num estado caótico, quase de destruição. “Foram tombados então para serem preservados”, argumenta Lopes. “Os pontos turísticos não correm o risco de desaparecer, pois são áreas dinâmicas e que estão sempre sendo conservadas. Mas, não tenha dúvida de que, se em qualquer momento, algum deles for ameaçado, será com certeza tombado.”

Edifícios que poderiam ser considerados patrimônios históricos hoje caso continuassem a existir foi um outro tema abordado. Geralmente, isto acontece com os bens privados. Trata-se da questão da vontade do dono. Em Maringá, uma antiga clínica (Doutor Coutino), em frente ao prédio da CIA, pode ser considerada um ótimo exemplo disso. Por ser privada, ela desapareceu. E, antigamente, era ali que funcionava o Hotel Esplanada. “Um prédio muito interessante”, argumenta Lopes.

Serviço: para se conseguir material de pesquisa, Lopes indica, além da Divisão de Patrimônio Histórico e Cultural – que funciona no prédio do Teatro Calil Hadad- a secretaria cultural, o museu da UEM e as bibliotecas da cidade.Telefone da Divisão de Patrimônio Histórico e Cultural: 3901-1041.


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Nota: atualmente o professor não ocupa mais este cargo. A reportagem foi realizada em 2006.