Saio de casa com sundown. Do lado de fora, parece o inferno: quase 35 graus Celsius, e tudo o que me vem à mente é uma sombra e um sorvete [no clube, na praia, no quintal de casa]. Eu, que estou acostumado ainda com a vida de pegar ônibus às vezes para cumprir com minhas obrigações, nem sequer ligo tanto para carros. Eu não acostumei a usar minha carteira ainda [também né, um dia com ela é pouca coisa!]. O máximo que fiz durante ontem e hoje com relação a carros foi trocar os carros aqui de casa de lugar e ajudar meu pai rapidão colocando o carro noutro lugar. Pois bem, diga-se de passagem que isso não tinha absolutamente nada a ver com o que eu ia falar aqui hoje. Voltemos ao assunto então.
*
O fato é que eu saí de casa hoje para fazer a cirurgia do meu dente molar do siso. Minha dentista tinha me tranqüilizado muito alertando antes da cirurgia que nada iria doer, nada. O fato é que, antes de eu chegar lá, algo bastante curioso me aconteceu, e isso tem a ver com o mini-ônibus em que eu estava. Após entrar e ter pago a passagem, observei que em uma das poltronas havia uma enorme poça de café, derramada eventualmente por algum desleixado que deixou seu copinho sobre a mesma. Como fatos do tipo ônibus com poltronas pixadas e sujas já são normais em nossa sociedade, nem dei tanta importância, até porque eu estava com um problema maior em mente – o maldito siso!
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Foi aí que o motorista surgiu e, como num relapso, irritou-se ao ver a pocilga que atraía moscas em seu micro-ônibus. Ele disse:
- Nossa, tem gente que não tem consciência mesmo né? – e limpou o café com um pano branco, mas branco que até dava dó.
Eu na hora apenas afirmei com a cabeça, pois não sou do tipo de iniciar rebeliões e manifestações na base do pensamento popular. Daquele tipo que a gente encontra aos montes por aí dentro dos ônibus, revoltados sabe Deus com o quê, xingando administrações públicas e metendo a boca no mundo. Eu não concordo com esse tipo de pensamento, por isso na hora apenas balancei a cabeça num sinal positivo que concordava com o que ele dizia, simplesmente com a intenção de cortá-lo para não levar o caso adiante.
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Foi aí que o mais engraçado e completamente sem nexo em relação a fala dele aconteceu. Ele pegou o copinho e a colherzinha que estavam sobre a dita cuja e, como num colapso de memória seletiva que permitiu-lhe esquecer suas falas sobre “consciência” e blá,blá,blá, pegou o lixo e jogou na rua. Eu, que ainda estava com o maldito siso em mente, na hora parei e mantive meu pensamento nas atitudes do velho senhor ecologicamente “consciente”. Ri, discretamente, enquanto ele fumava um cigarro do lado de fora. E depois fiquei pensando.
*
Por que raios as pessoas adoram falar mal das coisas se nem sequer se importam com suas atitudes individuais? Tentei pensar no caso de hoje mesmo, e vi que a solução não seria ele jogar o lixo na rua, obviamente, pois estaria apenas repetindo a mesma atitude que algum “inconsciente” cometeu antes.
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Já disse: não gosto desses discursos de esquerda partidos de evidências pouco conceituais. Se existe um fato, informe-se. Essa é a primeira parte. Saiba tudo sobre seus direitos, deveres, sobre consciência comunitária, ecológica e prestativa, saiba sobre sua vida! Não me venha sentar perto de mim e começar a dizer que o prefeito esqueceu de plantar árvores aqui porque ta muito sol, que os gafanhotos estão morrendo e que as pragas naturais ressurgiram, que o mosquito da dengue é o novo mal da prefeitura, que as estradas do País são uma merda e que tapar buracos não resolve nada. Caracas, cadê os argumentos para isso? Basta simplesmente olhar e começar a xingar?
*
Digo que fico irritado quando alguém vem xingar alguma coisa perto de mim porque sei o quanto é difícil de agradar a todo mundo. Ninguém nunca conseguirá tal fato. O primeiro passo para você ser consciente e sair metendo a boca no mundo é muito além de apenas observar. Você deve investigar, se é essa a melhor palavra. Corra atrás do problema, faça análises, colha dados, e enfim você verá que existe sim um eventual problema, mas que somente seu esforço foi capaz de dar a você a dignidade de criticá-lo. O segundo passo é cobrar. Agora sim é a sua vez de perguntar para os responsáveis, indagar poderes, tentar ver o que está e o que não está sendo feito. E, por fim, apresente soluções. Essa é, sem dúvida, a melhor parte. Indique, ajude, faça sua parte.
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E, cá entre nós, meu dente do siso que não está mais entre nós [!] ta doendo um bucado. Por isso amanhã volto a escrever mais.
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O fato é que eu saí de casa hoje para fazer a cirurgia do meu dente molar do siso. Minha dentista tinha me tranqüilizado muito alertando antes da cirurgia que nada iria doer, nada. O fato é que, antes de eu chegar lá, algo bastante curioso me aconteceu, e isso tem a ver com o mini-ônibus em que eu estava. Após entrar e ter pago a passagem, observei que em uma das poltronas havia uma enorme poça de café, derramada eventualmente por algum desleixado que deixou seu copinho sobre a mesma. Como fatos do tipo ônibus com poltronas pixadas e sujas já são normais em nossa sociedade, nem dei tanta importância, até porque eu estava com um problema maior em mente – o maldito siso!
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Foi aí que o motorista surgiu e, como num relapso, irritou-se ao ver a pocilga que atraía moscas em seu micro-ônibus. Ele disse:
- Nossa, tem gente que não tem consciência mesmo né? – e limpou o café com um pano branco, mas branco que até dava dó.
Eu na hora apenas afirmei com a cabeça, pois não sou do tipo de iniciar rebeliões e manifestações na base do pensamento popular. Daquele tipo que a gente encontra aos montes por aí dentro dos ônibus, revoltados sabe Deus com o quê, xingando administrações públicas e metendo a boca no mundo. Eu não concordo com esse tipo de pensamento, por isso na hora apenas balancei a cabeça num sinal positivo que concordava com o que ele dizia, simplesmente com a intenção de cortá-lo para não levar o caso adiante.
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Foi aí que o mais engraçado e completamente sem nexo em relação a fala dele aconteceu. Ele pegou o copinho e a colherzinha que estavam sobre a dita cuja e, como num colapso de memória seletiva que permitiu-lhe esquecer suas falas sobre “consciência” e blá,blá,blá, pegou o lixo e jogou na rua. Eu, que ainda estava com o maldito siso em mente, na hora parei e mantive meu pensamento nas atitudes do velho senhor ecologicamente “consciente”. Ri, discretamente, enquanto ele fumava um cigarro do lado de fora. E depois fiquei pensando.
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Por que raios as pessoas adoram falar mal das coisas se nem sequer se importam com suas atitudes individuais? Tentei pensar no caso de hoje mesmo, e vi que a solução não seria ele jogar o lixo na rua, obviamente, pois estaria apenas repetindo a mesma atitude que algum “inconsciente” cometeu antes.
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Já disse: não gosto desses discursos de esquerda partidos de evidências pouco conceituais. Se existe um fato, informe-se. Essa é a primeira parte. Saiba tudo sobre seus direitos, deveres, sobre consciência comunitária, ecológica e prestativa, saiba sobre sua vida! Não me venha sentar perto de mim e começar a dizer que o prefeito esqueceu de plantar árvores aqui porque ta muito sol, que os gafanhotos estão morrendo e que as pragas naturais ressurgiram, que o mosquito da dengue é o novo mal da prefeitura, que as estradas do País são uma merda e que tapar buracos não resolve nada. Caracas, cadê os argumentos para isso? Basta simplesmente olhar e começar a xingar?
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Digo que fico irritado quando alguém vem xingar alguma coisa perto de mim porque sei o quanto é difícil de agradar a todo mundo. Ninguém nunca conseguirá tal fato. O primeiro passo para você ser consciente e sair metendo a boca no mundo é muito além de apenas observar. Você deve investigar, se é essa a melhor palavra. Corra atrás do problema, faça análises, colha dados, e enfim você verá que existe sim um eventual problema, mas que somente seu esforço foi capaz de dar a você a dignidade de criticá-lo. O segundo passo é cobrar. Agora sim é a sua vez de perguntar para os responsáveis, indagar poderes, tentar ver o que está e o que não está sendo feito. E, por fim, apresente soluções. Essa é, sem dúvida, a melhor parte. Indique, ajude, faça sua parte.
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E, cá entre nós, meu dente do siso que não está mais entre nós [!] ta doendo um bucado. Por isso amanhã volto a escrever mais.