*Saio do ônibus como de costume, vou caminhando em passos rápidos até chegar em casa. Sempre foi assim. Dia ou outro dou uma breve passadinha na padaria para comprar alguma coisa doce e esperar o tempo passar.
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Às vezes, quando chego em casa ainda de madrugada, saio no jardim tentando desvairar e esfriar a cabeça. Penso em como seria se o mundo fosse de outro jeito, se eu pudesse colocar todos meus planos em prática. Aí volto quando percebo que o dia está chegando.
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De vez em quando penso em ir para bem longe. Não importa onde seja, contanto que eu me sinta bem. Posso enjoar muito fácil de um lugar, como também me acostumar num instante com outro. É questão de práxis que resolvo em meu dia-a-dia. Se tiver um lugar para parar, sentar e refletir durante a noite, está bom demais para mim.
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Sonho em ter uma sacada cuja visão seja um outro e qualquer prédio na frente. Eu gastaria horas e horas ali, observando milhares de vidas e mais vidas sendo vividas. Eu até compraria um binóculos! Acho incrível a capacidade que as pessoas têm de esconder seus reais sentimentos. Posso observar através dos olhos e ver que ninguém está feliz. Como conseguem? Ainda descubro como!
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Vou andando pela madrugada fria e escura da cidade. Resolvi voltar à pé com meu amigo hoje, que mora perto da minha casa. Nenhum café aberto ou algo similar. Vamos andando e conversando. Acho que o papo que todo mundo mais gosta é falar sobre a vida alheia. Quando chego em casa, paro para refletir sobre meu dia e planejar o seguinte. É sempre assim que acontece. Às vezes chego a sentar em frente à minha cama e jogar todos os pensamentos ruins para fora, como se fosse uma espécie de tecla delete. Sempre dá certo e, ademais, começo meu dia muito melhor.
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Pego a bicicleta às 6 e 30 da manhã, vou pedalando até a feira. Lá eu não encontro conhecido algum. Sento-me no banco da barraca de pastel, como um cidadão qualquer, misturado entre tantos outros que ali acordaram cedo. Parecem que estão felizes e contentes, mas sei o quão difícil é acordar a essas horas da matina. Isso porque boa parte acorda muito mais cedo. Ali sinto-me como se estivesse exausto de tudo e de todos. A vida me parece bem mais simples do que eu penso ser. É como se aquele pastel e aquela sodinha levassem embora todo meu cansaço. Isso se chama stress social.
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Tirei meu dia para ir ao clube hoje. Embora pareça mais um dia normal, para mim é mais um momento de curtir sozinho o que eu ainda posso viver. Cheguei cedo e, por enquanto, não há mais ninguém. Durmo e acordo de novo quase na hora do almoço. Olho para meu lado e não vejo ninguém. Sei que muitas pessoas têm compromissos durante o dia. Nesse dia eu também tinha, mas resolvi largar tudo de lado. Depois do almoço, volto, entro na água, descanço. É o tempo de eu observar ao meu redor e ver quantas outras pessoas estavam fazendo o mesmo que eu. Acreditei se tratar do clube da solidão. O som que estava tocando no clube travou. A mulher ao meu lado levantou, irritada, e me perguntou como é que podia uma coisa daquelas!
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Saio de uma festa quase às 5 da manhã. É quase a distância de dois quarteirões de casa, então volto andando. Ventinho gelado, brisa que eu queria todos os dias. Sento-me no meio fio e começo a pensar em mnha vida. Sozinho, naquele instante, é como se não houvesse perigo, como se não existisse algo além de mim. Chego até a trocar palavras comigo mesmo, na esperança de que ninguém me ouça, ninguém me escute. Um carro que estava estacionado na rua dá partida. É tempo de eu me levantar, colocar a mão na cara e sair morrendo de vergonha.
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Hoje acordei com vontade de sair daqui. Ontem foi o cúmulo: eu querendo dormir cedo, às 7 da noite, para tentar regular meu sono, e um amigo me liga. Logo, uma amiga aparece em casa para pedir ajuda e, depois, um outro amigo que eu não via há mais de um ano aparece para colocar a conversa em dia.
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Tirei o dia de hoje para meu stress urbano. Ando pelas ruas, observo as pessoas, gosto de pegar panfletos. Às vezes paro para observar as vitrines que me chamam a atenção. E, como quem não quer nada, vou seguindo andando por aí. Paro em uma casa lotérica, compro umas raspinhas e, no final, acabo perdendo meu cincão!
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Não que eu não goste de pessoas, mas todos uma hora ficam sozinhos. Esses são meus momentos do dia que tenho para mim, para pensar, para pôr em dia a conversa comigo mesmo. Às vezes acho que sou meu melhor amigo, e continuo preferindo pensar dese jeito.
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