19.4.07

As cores que compõem o mundo

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Às vezes fico imaginando como seria sair pintando tudo o que está por aí. Pintar os postes, deixar a árvore branca e a rua azul.
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Porém, a única cor que me vem à cabeça é o vermelho. O vermelho representa paixão, amor, sensualidade. É também a cor do natal, designando força e energia. Vermelho socialista, vermelho do morango.
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E por que raios essa cor não me sai da cabeça? Simples: porque vermelho é a cor do sangue. Claro que, de uma forma ou de outra, tudo acaba nele. Quando os socialistas são mortos, o chão fica colorido de vermelho. Quando o morango é espremido, um suco de cor avermelhada é produzido. Quando acaba o natal, o vermelho sai de moda. Enfim: uma das cores que mais está presente em nosso cotidiano.
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E está presente também de uma forma má, cruel e extremamente desumana. Por quantas vezes vemos, nas notícias diárias que passam por aí, as tamanhas atrocidades que ocorrem com nossos semelhantes? Você ainda consegue se lembrar de quantos corpos foram encontrados desde o último atentado? Vermelho, vermelho...
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Ainda penso que a melhor saída é colorir. Nada se resolve por violência, exceto a procriação dela mesma. Tudo o que se tem são cores: amarelo para dar alegria ao dia, azul para dizer que está na hora, branco para acalmar os olhos. E pensar que branco é a cor da paz – claro, pois é a cor mais fácil de ser manchada! Qualquer pingo de vermelho e pronto, tudo vira notícia. Nem parece que aquele espírito de ano novo permanece conosco durante todos os dias. E é inaceitável que esta condição ao qual estamos submetidos continue da forma como está.
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Pense você, sentado num barzinho, quando de repente um carro em alta velocidade passa arrastando o corpo de um menino! Colorindo as ruas da cidade? Ou simplesmente matando a nossa noção de coletividade? A cor do coletivo é preto, pois preto representa o luto. E é exatamente assim que todos nós deveríamos estar vestidos, pois nada mais há de se esperar nesse mundo cheio de anormalidades.
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Às vezes fico pensando como seria se nada mais tivesse cor, se tudo fosse sólido. Talvez assim todo mundo enxergasse igual, talvez assim omitiríamos boa parte das diferenças.
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