7.4.07

[ Crônicas Absurdas ] Retrato por uma janela

(foto de minha autoria: um retrato por uma janela)

[ Crônicas Absurdas é um projeto com os contos mais loucos que eu já escrevi.
E olha que são vários! ]

*

- Lá fora o mundo é tão abstrato.
- Defina abstrato amigo.
- Algo não muito bom, que não se sente quando prevalece um sentimento maior.
-Quer dizer que você não sente nada lá fora?
- Quero dizer que quando saio por essas ruas dá uma vontade de voltar à minha casa e pegar uma metralhadora.
- Você deve ser revoltado, é isso. Com o tempo você se acostuma.
- E já não era pra ter me acostumado?
- Eu que te pergunto.
- Sabe, acho que nunca há um conformismo constante.
- Ninguém nunca está feliz?
- É... Procuro olhar nos olhos daqueles que me parecem felizes. E não encontro graça. Parece que essas pessoas estão, sei lá, meio que fingindo, blefando.
- Você quer dizer que uma pessoa feliz deve ter momentos tristes então.
- Exatamente. Olhe para aquela pessoa lá em baixo. Ela caminha nessas ruas estreitas e escuras com medo. Não está feliz. Aqui dessa janela posso ver toda a tristeza da cidade.
- Olha, acho que você está confundindo as coisas. Não quero dizer que seu pensamento esteja cem por cento errado, ele está confuso. Uma pessoa que caminha lá em baixo está simplesmente caminhando, o não quer dizer que ela esteja triste.
- Ninguém nunca me compreende. O que quero dizer é que esse mundo de hoje está se tornando tão mais fechado. Sabe, antigamente, era a melhor coisa sair e se divertir sem medo de ser feliz. Hoje, pelo contrário, saímos sempre com alguma preocupação, porque realmente não há conformismo constante.
- Quer dizer que se eu me acostumo com algo, nunca estarei feliz?
- Não, quero dizer que se você se acostuma com algo, com o tempo irá achar que ele perdeu a graça.
- Mas esse tal de algo tem que ser sempre engraçado?
- Você entendeu. Digo algo, pode ser uma coisa legal ou não, mas que ele já não é mais o mesmo após um tempo.
- Então você já se enjoou de mim?
- Pode ser. De algumas coisas em você eu já.
- Tudo bem, sempre estamos mudando para ver se o mundo nos aceita, não é? A mesma pessoa que caminhava lá em baixo agora pode estar feliz porque encontrou uma nova diversão em seu caminho.
- Sabe...
- Não, não sei.
- Viver às vezes é tão enjoativo.
- É, pode ser. Mas de que vale a pena viver se nós não nos enjoamos? De que vale a pena um brinquedo se ele nunca estraga?
- É, parece que você captou a minha mensagem.
- Não, você que ainda não acordou para a vida.

*