27.4.07

[ Matéria Prima ] Os mortos já não descansam mais em paz




Vivo numa sociedade que todos dizem ser moderna e contemporânea, porém, considero-a primitiva demais



“Uma disputa entre facções criminosas pelo controle de pontos-de-venda de drogas espalhou pânico na zona norte do Rio de Janeiro, com pelo menos 13 criminosos mortos, 11 presos e três pessoas atingidas por balas perdidas - uma delas dentro de um ônibus. Tiroteios se espalharam por várias ruas do Catumbi e ocorreram, inclusive, em um cemitério, aterrorizaram dezenas de pessoas que velavam seus parentes.” Folha de S. Paulo – 18/04/2007

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Às vezes eu acho bom não enxergar o mundo. Deve ser horrível acordar todos os dias e verificar cenas de homicídios e atos terroristas nos jornais. Vivo numa sociedade que dizem ser contemporânea e moderna, porém, considero-a primitiva demais.

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Estou a caminho do velório de meu amigo, que morreu ontem, vítima de uma bala perdida, enquanto voltava ao trabalho. Eu só consigo ouvir os gritos da população, que se reprime em meio a tudo isso. Minha cidade está de luto, completamente perdida em suas ações. Vou caminhando em passos lentos, o mundo hoje está escuro demais.

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À minha frente sinto que quase ninguém mais anda por aí, sozinho e desprotegido. As crianças já não dão seu colorido às ruas da cidade – medo de seqüestro, proteção dos pais. Sinto cheiro de pólvora no ar, o que me faz crer que uma quadrilha está em plena fuga dos policiais após ter assaltado o banco ali da esquina. Vou andando, não há nada que eu possa fazer.

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Penso em como me tornei tão invulnerável em relação a esse caos, estou indefeso e sem mecanismos para reagir. Já não enxergo mais nada. Vou seguindo minha direção, ao passo que um casal discute aos berros na calçada e um canto insuportável de buzinas me faz sentir que o trânsito é o verdadeiro inferno da modernidade.

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E, quando finalmente chego ao velório, todos estão aterrorizados, pedindo a Deus por proteção. Até lá os tiroteios haviam chegado. Nem os mortos descansam mais em paz – não conseguem ter a dignidade de serem enterrados de forma justa, diferentemente daquela em que viviam nesse mundo tomado pelo caos. Minha sociedade está em óbito, perdeu seus valores sociais.

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É em meio a tudo isso é que eu me considero estar a salvo, livre de presenciar tamanhas opressões e atrocidades. Nasci cego, não tenho visão para enxergar todas essas cenas bárbaras que ocorrem em minha sociedade. Mas eu sinto, sinto que ela está morta e sem coragem de enfrentar tamanha violência. E é por isso que eu digo que o mundo de hoje está de luto, vestindo o preto que se contenta em calar a humanidade.

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